Talitha Benjamin

Por que está na hora de deixar as piadas racistas para trás

Piadas racistas

Ao contrário do que a maioria da população brasileira imagina, o racismo não está apenas em ofensas e ataques explícitos e violentos. As microagressões contra a dignidade e identidade da pessoa negra são muitas, a maioria delas passando despercebidas por causa do racismo estrutural que organiza a sociedade.

Ainda é muito comum ouvir comentários racistas, intencionais ou não, muitas vezes em tom de brincadeira. Eles acontecem em rodas de amigos, em reuniões familiares, até mesmo no ambiente de trabalho. Diversos digital influencers, jornalistas, atletas e celebridades em geral já se envolveram em alguma polêmica envolvendo esse tipo de discurso.

Geralmente, os ofensores, quando confrontados, é comum ouvir justificativas como “foi apenas uma piada inofensiva”, “não sou racista, tenho amigos/familiares/empregados que são negros”, ou que “o mundo está ficando sensível, não se pode brincar com nada”.

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Com o debate sobre as relações raciais no Brasil cada vez mais em alta, é complicado entender porque há tantas pessoas que insistem em recorrer à uma piada racista para arrancar risos e aplausos.

Essa insistência toda – e os números que provam que a desigualdade entre brancos e negros ainda é um problema grave no Brasil – levanta a questão: essas piadas são realmente inofensivas? E de onde vem o desejo e motivação para fazê-las, mesmo em tempos onde ela possivelmente irá gerar polêmica?

Toda brincadeira tem um fundo de verdade

Esse tipo de humor não é e nunca poderá ser inofensivo. Isso porque, uma vez que uma pessoa associa a negritude à algo negativo com o objetivo de entreter e fazer rir, ela automaticamente reforça preconceitos enraizados na sociedade.

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Por exemplo, uma piada que associa negros ao crime pode parecer inofensiva para quem ri dela, mas essa associação é muito real e séria, já que 75% das mortes causadas por policiais são de pessoas negras, como mostra o 13º Anuário da Violência.

Além disso, as pessoas negras são a maioria em casos de prisões efetuadas sem condenação, sem provas concretas ou até mesmo injustamente, como é o caso de Barbara Querino, a Babiy, uma jovem negra que foi condenada sem provas por roubo.

A comicidade de piadas preconceituosas no geral vem da zoação às custas de alguém. E geralmente esse alguém faz parte de um grupo marginalizado, que já precisa atravessar diversos obstáculos sociais para ter acesso à direitos básicos, que é o caso da população negra.

Fazer comentários preconceituosos sobre alguém com o objetivo de gerar riso não te faz alguém engraçado e agradável, e sim uma pessoa que deliberadamente usa o desconforto e desvantagem alheia para zombaria. Pense: o que isso agrega à você? Por que, exatamente, você acha esse tipo de coisa engraçada?

O humor não precisa ser preconceituoso

Piadas racistas e preconceituosas em um geral costumam ser justificadas pelo humor negro, um gênero humorístico que utiliza de temas sérios, mórbidos e tabus de forma politicamente incorreta para fazer rir.

No entanto, o humor não está isento de considerar o contexto social do que pretende abordar, muito pelo contrário, o humor questiona e provoca. Se vivemos em um país descaradamente racista e preconceituoso, ao invés de potencializar a desigualdade, o humor deve questionar a desigualdade e os mecanismos que o promovem.

Como agir ao ouvir piadas racistas

Hoje em dia, os debates sobre tensões raciais são muito mais acalorados – justamente porque o racismo não é mais tolerado e jogado para debaixo do pano como era antigamente.

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Cada vez mais a população procura se educar sobre a desigualdade racial no Brasil, e como ela pode se manifestar em situações corriqueiras, tal qual um comentário ou piada racistas. É importante que haja alguém – independentemente da etnia – para apontar o racismo no discurso. Isso não precisa ser feito de forma agressiva ou ser transformado em uma discussão. Um bom exercício é fingir que não entendeu a piada e pedir para quem a fez explicá-la. Isso deve fazer com que ela enxergue a problemática no próprio comentário.

É importante lembrar também que, caso o comentário cause desconforto, diminua ou afeta negativamente a dignidade da pessoa preta por causa de sua raça, ele pode ser enquadrado na Lei do Crime Racial – Lei 7716/8, que prevê até 5 anos de reclusão, dependendo da gravidade da conduta.

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