Talitha Benjamin

Antirracismo: como ser um aliado na luta contra o racismo sendo branco

Antirracismo

Há cerca de 130 anos, a escravidão dava-se por encerrada no Brasil – último país do Ocidente a abolí-la. Na época, nada foi garantido para que a população negra, que acabara de se livrar das amarras do trabalho forçado, tivesse acesso à uma vida digna de ser chamada de “livre”. Como consequência disso, as desigualdades políticas e socioeconômicas evoluíram e adaptaram-se aos tempos modernos.

Dados do Atlas da Violência 2018 mostram que as pessoas negras representam 71,5% das pessoas assassinadas de 2018. O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam um aumento de 23,1% no número de mortes de pessoas negras entre 2006 e 2016, enquanto as fatalidades entre pessoas não-negras diminuiu 6,8%.

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Também há desigualdade no mercado de trabalho, com 64,2% dos quase 13 milhões de desempregados sendo pretos e pardos. A renda per capita da população branca também representa mais que o dobro da população preta (R$ 1097 contra R$ 508, segundo o relatório “Desenvolvimento Humano para Além das Médias”).

Quando se trata de igualdade racial, o Brasil estacionou no período colonial, onde as políticas públicas para garantir o acesso melhores oportunidades de vida são pouquíssimas, fazendo com que a população negra se encontre praticamente estacionada na base da pirâmide social.

Em resposta às condições vividas por pretos e a falta de movimentação social para mudar essa realidade, a ativista negra Angela Davis clamou: “numa sociedade racista, não adianta não ser racista, nós devemos ser antirracistas”.

Com essa frase, Davis afirma que em uma sociedade onde negros encontram-se na margem – e com poucas ou nenhuma oportunidades de sair de lá – os brancos possuem uma responsabilidade maior do que apenas condenarem o racismo: é preciso posicionar-se e agir contra ele, utilizando-se de seus privilégios para combatê-lo e cobrar ações de igualdade.

Identifique e reveja os seus privilégios

Privilégio branco nada mais é do que as vantagens que a população branca possui em relação aos negros no Brasil. Por causa do racismo estrutural, o privilégio branco garante à pessoas de pele branca melhores oportunidades de emprego, de educação, de ascensão social, de de segurança e de qualidade de vida. Isso não significa que brancos não sofram ou que não passem por dificuldades – apenas que a cor da sua pele não dificulta ainda mais a sua vivência.

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Reconhecer os privilégios é o primeiro passo para desenvolver empatia por grupos marginalizados, que não possuem a mesma oportunidade que você enquanto pessoa branca, lembrando que a condição da pessoa negra traz desvantagens para todos os aspectos da vida dela.

Aproveite o seu acesso à espaços segregados

Se você é branco, pare para pensar: quantas pessoas negras frequentam o mesmo lugar que você? Como você se sente quando está em um espaço onde só há pessoas brancas? Você se incomoda ou age para diversificar esses ambientes, ou sequer nota a ausência de pretos e pardos? Como isso te toca?

Assumir uma postura antirracista é passar a perceber onde estão as pessoas negras, que em geral não frequentam os mesmos lugares e não possuem a mesma abertura social de que os brancos. Em shoppings e restaurantes, por exemplo, é muito mais comum ver pessoas brancas desfrutando o dia enquanto pessoas negras trabalham. Ser antirracista é notar esse padrão e incomodar-se com ele. No Brasil, a profunda segregação não está apenas nos atos explícitos de violência racial, mas também na dificuldade que a pessoa negra encontra para ocupar os mesmos espaços do branco.

Por essa razão, a posição antirracista do branco consciente torna-se importante, pois estando em espaços embranquecidos e segregados e usando sua voz – que por causa do privilégio branco, é mais valorizada -, é possível questionar a falta de oportunidades para negros, fortalecendo a luta pela igualdade.

Se você é branco(a), pense e apoie políticas para acabar com essa realidade. Como disse Davis, não basta dizer que condena o racismo se você não age contra ele. Na hora de escolher as propostas de um candidato nas eleições, por exemplo, você pensa no que essas propostas representam para a população negra? Você apoia políticas públicas que têm como objetivo a superação do racismo (como a Lei de Cotas, por exemplo)?

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Respeite o lugar de fala, mas não deixe que ele te impeça de falar

Respeitar a vivência e o discurso de pessoas negras sobre sua realidade é necessário, mas isso não significa que você não possa ser também uma voz ativa contra o racismo.

Ouça as pessoas negras que você conhece, estude os seus ensinamentos, ouça o que elas têm a dizer sobre suas experiências, e aprenda com isso. Quando chegar o momento de falar – dê prioridade para quem sente o racismo na pele – mas não deixe que isso te impeça de condenar a opressão, piadas e comentários racistas e de questionar políticas excludentes, principalmente para outras pessoas brancas.

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Ser uma pessoa branca e antirracista é lembrar-se e questionar-se a todo instante: sou um aliado, e não o protagonista. Como posso ajudar nessa luta? A sua postura precisa ser de quem se sensibiliza com a opressão, e não de quem a vive.

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