Talitha Benjamin

Box braids em cabelo liso: será que pode?

Atualmente, não é raro ouvir o termo “apropriação cultural” em algumas discussões sobre racismo ou quando falam de modas e tendências como dreadlocks ou das tranças box braids em cabelo liso. Por causa da discussão da apropriação cultural, esse tema acaba virando tabu, já que as tranças são muito comuns em mulheres negras justamente porque possuem todo um significado histórico e de resistência para o povo preto através da estética.

Para entender melhor a importância das box braids e sua relação com a apropriação cultural e também para descobrir o porque esse tipo de técnica de tranças é mal vista em cabelos lisos e em pessoas brancas, conversamos com três mulheres negras que conhecem tudo sobre esse penteado que gera tanta polêmica. Confira:

Tranças box braids e apropriação cultural

Box braids em cabelo liso

Falar de apropriação cultural em aspecto individual ainda é muito difícil, principalmente por causa da globalização causada pelo capitalismo. No entanto, o termo se refere à comercialização em grande escala da cultura de grupos marginalizados, enquanto o grupo em si não lucra nada com isso. Um grande exemplo são os cocares indígenas sendo usados por pessoas brancas e não-indígenas em festivais de músicas e festas, enquanto, no mundo real, esse grupo têm sido vítima de genocídio tanto no Brasil quanto em outros países.

As box braids seguem o mesmo caminho: os penteados e o cabelo em geral têm grande significado dentro da cultura africana: em algumas regiões elas podem indicar status e identificação étnica, por exemplo. No Brasil, um país extremamente racista, o uso social desses penteados e de acessórios como o turbante, por exemplo, é um ato de resistência de um povo que teve sua identidade sistematicamente apagada pelo processo de escravidão e marginalização.

Tranças em cabelo liso: o que pensam as mulheres negras

Tranças em cabelo liso

Para Brenda Lima, mulher negra de 22 anos, que trabalha com as tranças há dois, as box braids vão muito além do que aparentam ser: “não são meros penteados que se usam para ir a um evento e que depois são retirados, mas sim algo que tem uma história por trás, além de uma importância histórica e cultural para nós”.

Ana Beatriz Motta, de 23 anos, tem uma relação muito longa com as tranças, que costuma usar desde 2011: “foi a primeira vez que eu me senti bonita com um cabelo afro, porque até então eu não tinha assumido meu cabelo natural. Enxergar beleza, poder e resistência em mim com um cabelo afro foi muito importante”, declara.

Apesar de se sentir bonita com as tranças, Beatriz não escapou de comentários racistas e do mal estar que eles causam: “é complicado, você se sente tão bonita, mas ainda tem gente perguntando se você consegue lavar o cabelo e coisas do tipo. Cada dia é uma luta quando você é preta e está de trança.”

Justamente por essa experiência, Ana Beatriz não se sente bem vendo pessoas brancas ou de cabelo liso usando um penteado que, para ela, que é negra, sempre foi símbolo de resistência e ancestralidade.

“Acho desrespeitoso porque a gente sofre tanto só por sair na rua de tranças, e ver a pessoa branca, que simboliza a nossa opressão, mesmo que seja alguém de bom coração, usando nossos símbolos totalmente fora do contexto é um desrespeito tremendo” acredita ela.

Para Gabriela Xavier, de 25 anos, seu trabalho com as box braids e outros penteados afro é importante pois vai muito além da estética: “através dele, eu me reconecto com a nossa ancestralidade e também devolvo a “afroestima” para mulher negra exaltando a beleza dela, é uma transição que passamos juntas”.

Sobre as tranças em cabelos lisos e em pessoas brancas, Gabriela não se incomoda particularmente: “sei que muitos usam por estética e por acharem que é uma ‘tendência’, mas eu particularmente não faço tranças em brancos porque o meu trabalho é para exaltar a beleza e devolver a autoestima da mulher negra e do homem negro também”.

Box braids em cabelo liso: por que as tranças não caem bem nos fios sem curvatura

Box braids em cabelo liso

A técnica de box braids, além de carregar todo uma história de simbolismo e resistência para o povo negro, também é uma técnica que naturalmente não é bem aceita em cabelos lisos. Gabriela, trancista profissional, afirma que as box braids não duram o mesmo tempo que normalmente duram em cabelo afro. “Cabelo liso não segura trança, essa técnica é mais indicada para cabelos crespos e cacheados”.

Brenda concorda que a técnica não funciona da mesma forma para as lisas: “requer um pouco mais de paciência, pq ele não cria aquele atrito que um cabelo crespo cria, segurando mais tempo.”

Mas, afinal, pode ou não pode?

Apesar dessas questões levantadas, a pergunta ainda paira no ar: “pode ou não pode?”. A resposta é: sim, talvez, depende, não.

O importante, de qualquer forma, é entender que as tranças não são apenas um tipo de penteado ou uma tendência de beleza que está em alta, e sim um símbolo de resistência e ancestralidade para pessoas negras – um símbolo que esse povo luta para vivenciar e proteger. Portanto, se uma pessoa branca ou de cabelo liso se propõe a fazer as box braids, esteja preparada para críticas, já que, invariavelmente, o cabelo passa uma mensagem. Como coloca Ana Beatriz:

“Não é um acessório, não é um alisamento do cabelo crespo e cacheado. É um símbolo de resistência, que as pessoas brancas ou de cabelo liso não precisam e não vivenciam. Por essa razão, para a sociedade, as box braids em cabelo liso ou usados por brancos são bonitas e estilosas, enquanto em nós, pretos, é algo sujo e coisa de marginal. É preciso reconhecer essa diferença” finaliza.

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