Cancelamento seletivo: por que o movimento atinge mais uns do que outros?

Por: Luana Queiroz
Cultura do cancelamento
A cultura do cancelamento cobra, mas também oprime

A cultura do cancelamento voltou a ser destaque na mídia e, com ela, algumas reflexões sobre qual o perfil das pessoas que são alvos do “tribunal da internet”, o real valor do movimento e o quanto ele impacta alguns grupos mais que outros.

Em termos gerais, a cultura do cancelamento se trata de uma forma de vigilância e boicote de um grupo de pessoas contra algo ou alguém. Embora esse pareça um fenômeno novo, ele se manifesta há muito tempo e apenas tem sido potencializado com a internet e hiperglobalização. Saiba mais sobre como surgiu e o que é a cultura do cancelamento aqui.

O que tem acontecido, nos últimos anos, é que alguns eventos midiáticos, como os realities shows, têm dado maior visibilidade e proporção à cultura do cancelamento e traçado alguns perfis que mais tem sofrido banimento pelo seu comportamento diante dos olhos alheios.

Como a cultura do cancelamento atua?

Em 2020, a Agência Mutato mapeou o comportamento por trás da cultura do cancelamento, como os níveis de cancelamento, o perfil mais cancelado por aqui e como as pessoas, no geral, enxergam o movimento.

Sobre os níveis de cancelamento, são 3 tipos:

  • Boicote: normalmente relacionado à política, marcas e pessoas ou instituições em posição de poder, que quebraram a confiança de seus consumidores.
  • Ban e close errado: movimento informal, que atinge anônimos, influenciadores e celebridades, que está relacionado a casos pontuais e isolados.
  • Linchamento virtual e cancelamento: gerado por um ou mais closes errados, que resultam no cancelamento, e é mais direcionado a influenciadores e celebridades, quando estes se envolvem em algum desvio da norma padrão.
Tribunal da internet
O tribunal da internet julga e dá a sentença: cancelado

Mas quem costuma ser mais cancelado? O estudo ainda traçou esse perfil e os motivos que levaram esses grupos a ser alvo da cultura do cancelamento na internet:

  • 46% homens, brancos e heterossexuais.
  • 28% mulheres, brancas e negras, e heterossexuais.
  • 12% homens, negros e brancos, e gays.
  • 6% mulheres brancas, lésbicas e bissexuais.


Entre os principais motivos que fizeram esses perfis serem cancelados estão divergências políticas, homofobia e mau-caratismo.

Na prática, quem sofre com o tribunal da internet?

Embora homens brancos estejam no topo da lista, há um recorte por gênero e racial que impacta muito mais outro grupo: mulheres negras. O que ocorre é que, apesar de homens serem mais cancelados, culturalmente, eles tendem a se apoiarem – a famosa “passada de pano”. Além disso, as mulheres negras sofrem ataques mais severos no ambiente online.

Segundo pesquisa da Anistia Internacional, mulheres negras estão 84% mais propensas a receberem “tweets problemáticos” do que mulheres brancas. Já a tese de doutorado do pesquisador brasileiro e PHD em Sociologia Luiz Valério Trindade mostrou que 81% das vítimas de discurso depreciativo nas redes sociais são mulheres negras entre 20 e 35 anos.

Entre os efeitos da cultura do cancelamento estão a “cobrança em bando”, que pode se transformar em um grande linchamento virtual e trazer outros ataques para esse grupo, como o racismo

Basta acessar as redes sociais de pessoas negras canceladas e constatar nos comentários como a cor é usada como xingamento e invalidação e, muitas vezes, esse linchamento se estendem a outras pessoas do círculo, como filhos e amigos próximos.

Qual o limite da cultura do cancelamento?

Mesmo que essa seja uma pauta recorrente na internet e com cada vez mais adeptos, a cultura do cancelamento não é aceita por muitos: o estudo da Mutato apontou que 79% das pessoas disseram ser fortemente contra a cultura do cancelamento.

Mas então porque ela continua tão forte? E por que transcende do ambiente online para a vida real, resultando em efeitos negativos (psicológicos e financeiros) para aqueles que são cancelados? 

É preciso prestar muita atenção em posicionamentos que partem do princípio de que é necessário o boicote e exclusão de uma pessoa se valendo de falas tão problemáticas quanto para gerar a penalização. 

Além disso, a cultura do cancelamento não está isolada no mundo digital – todo esse comportamento acaba sendo reproduzido no mundo real, formando um ciclo infinito. Por isso, saiba avaliar e refletir até que ponto dar uma sentença a alguém na internet promove uma transformação verdadeira. 

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