Talitha Benjamin

O que é o complexo de salvador branco?

Complexo do branco salvador

Você com certeza já deve ter visto a seguinte cena: uma pessoa branca, talvez até mesmo uma celebridade, viaja para algum país africano para fazer trabalho voluntário e, com toda certeza, aparece em fotos rodeada de crianças negras e pobres. Como resultado, ela recebe diversos comentários e, em geral, é parabenizada pela sua coragem e altruísmo.

Nessas fotos, geralmente, não há contexto. Não se sabe quem é a criança, o que está acontecendo, ou até mesmo se houve consentimento dos responsáveis para que elas apareçam na foto. Só se sabe que, na foto, há um “herói”, no caso, a pessoa branca, e os “coitados” – que, obviamente, são os negros, já que é essa a imagem que a sociedade tem de crianças pretas.

Essas fotos existem aos montes na internet e todo o contexto por trás delas deu origem a um termo para descrever o fenômeno: o complexo de salvador branco, em inglês, white savior complex.

Afinal, do que se trata o complexo do salvador branco?

As pessoas que viajam para o exterior procurando se voluntariar e ajudar países pobres são jovens, em sua maioria brancos. Primeiramente, é preciso destacar a importância do voluntariado e que ele é, realmente, uma atitude altruísta e digna de respeito. No entanto, há uma quantidade gigantesca de selfies e fotografias tiradas com pessoas em situação de pobreza e vulnerabilidade, geralmente postadas em redes sociais para ilustrar a importância do belo trabalho do voluntário.

O motivo pelo qual essas fotos são negativas é simples: elas perpetuam estereótipos que associam pessoas negras e países africanos à pobreza e sofrimento, como se o homem branco fosse o único capaz de salvá-las. Isso não apenas não é verdade – há voluntários de todas as etnias e lugares do mundo nesses lugares -, como também é contraditório, pois é impossível negar o papel de países europeus na destruição de grande parte da África graças à escravidão e a colonização.

Em novembro de 2017, a Norwegian Students’ and Academics’ International Assistance Fund, uma organização que promove trabalhos humanitários na África, criou uma campanha para orientar jovens e voluntários a controlar o impulso de captar momentos das missões voluntárias para postar nas redes sociais. O objetivo é combater estereótipos negativos das pessoas nativas da região.

Além disso, o guia, que se chama Radi-Aid, orienta aos jovens que as fotografias desrespeitam a privacidade e dignidade das pessoas retratadas nelas, pois muitas são tiradas e postadas sem autorização.

Retratar o contexto das situações também é necessário: países não são simplesmente pobres e as pessoas não são simplesmente submissas à miséria. É preciso mostrar que há responsáveis por aquele cenário e o que exatamente está sendo feito para mudar a situação (principalmente se a pessoa fotografando foi com a missão de ajudar).

O complexo do Branco Salvador é um dos grandes responsáveis pela imagem negativa que o continente africano tem no Ocidente. É importante lembrar que, mesmo estando em situação de miséria, pessoas vulneráveis ainda têm direito à privacidade e dignidade. Existe muito mais na África (e também no Brasil) do que pobreza e miséria, e apesar desses problemas não poderem ser ignorados, há muitas outras coisas para mostrar ao mundo, que não sejam a foto de um “branco herói”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *