Thauany Lima

Por que ainda precisamos de um dia da consciência negra?

consciência negra
O dia 20 de novembro é considerado o dia nacional da consciência negra no Brasil. A data foi incluída no calendário em 2003, mas oficializada apenas em 2011 pela lei 12.519. Porém, menos de 10 municípios brasileiros aderiram o dia como feriado.

A data foi idealizada pelo pesquisador e professor gaúcho, Oliveira Silveira, no ano 1971. A proposta dele era tornar o dia 20 de novembro uma data para comemorar a tomada de consciência da população afro-brasileira sobre seus valores e suas contribuições para o país.

Muitos críticos acreditam que a data reforça o racismo brasileiro e coloca os negros em lugares de destaque e diferença.

Contudo, militantes e estatísticas mostram que o Brasil ainda precisa ser lembrado das suas lutas e do seu racismo estrutural. Pessoas negras, ainda hoje, passam pelos piores cenários sociais do país.

Seria lindo, se não precisássemos de um dia para refletir sobre os heróis. Ou em o quanto a população preta ainda sofre resíduos dos mais de 300 anos de escravidão. Contudo, esses fatores ainda são invisibilizados. Precisamos mostrar por que ainda é preciso ter um dia da consciência negra no Brasil.

A data de 20 de novembro

O dia 20 de novembro foi escolhido devido ao assassinato do líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi dos Palmares, no ano de 1695.

Embora lutasse pelos escravos, ele nasceu livre, capturado aos sete anos e obrigado a viver com um padre católico. Seu nome de batismo era Francisco, contudo, tornou-se Zumbi depois dos 15 anos, quando fugiu para viver no quilombo.

Zumbi era um grande líder respeitado por suas habilidades como guerreiro e estrategista militar. Além disso, foi um defensor da liberdade de culto e de religião. Uma das principais resistências no combate ao fim da escravidão no período colonial.

O líder foi morto após um ataque liderado pelo bandeirante Domingo Jorge Velho, em 1694. Com a invasão das tropas portuguesas, a sede do quilombo foi completamente destruída, porém, Zumbi conseguiu escapar, contudo, foi traído por um companheiro e entregue as tropas do bandeirante.

Zumbi foi morto e decapitado aos 40 anos. Sua história de resistência e luta fez com que o dia do seu falecimento se tornasse um marco para a população negra.

130 anos do fim da escravidão negra no Brasil

Quando a Europa invadiu a África e decidiu trazer pessoas negras para trabalharem de graça no Brasil, criou uma naturalização desse tipo de prática. Esse pensamento ainda perpetua nos dias de hoje – prova disso é a mão de obra negra no Brasil ser a mais desvalorizada.

De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), extraídos do 4° trimestre de 2017, os trabalhadores negros ganham cerca de 1,2 mil a menos que as pessoas brancas.

Além disso, a quantidade de pessoas negras com carteira assinada é inferior a de pessoas brancas, sendo 21,8% a 14,7% mutuamente.

Esse histórico de desigualdade e atraso, conforme afirmam especialistas, é um reflexo dos 300 anos de escravidão negra e dos pouquíssimos 130 anos de “liberdade” dessa etnia.

Com o fim da regime em 1888, os negros foram obrigados a resistirem sem a ajuda do país, sem fonte de renda e sem meios básicos para sobreviverem. Foram marginalizados e excluídos das regiões em desenvolvimento. Por isso, os negros até hoje sofrem com essa limitação, mesmo somando a maior parte da população do país.

Eles agregarem 54% da população, são maioria também nos subempregos, desemprego, pobreza, nas mortes, nas comunidades mais carentes e até no encarceramento, somando cerca de 64% da lotação dos presídios brasileiros, segundo o IBGE.

Isso prova a falta de reparação e atenção com essas pessoas. Deixando evidenciado o racismo estrutural que fere e limita diariamente a população afro-brasileira. Colocando-a em lugares de miséria, desigualdade e exclusão.

Ações afirmativas e reparação histórica

Como já foi dito pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barros, “o país tem o dever de reparação histórica devido ao racismo estrutural na sociedade brasileira”. Pois é, quando o fim do trabalho escravo foi decretado no Brasil, os negros foram praticamente invisibilizados, retrocedendo ainda mais no seu processo de ascensão.

O assunto sobre políticas de reparação e ações afirmativas são temas que estão sempre em pauta nos diálogos sobre desigualdade racial.

Contudo, quando se fala sobre cotas raciais, um mar de críticas aparecem, principalmente pela etnia branca. Porém, é necessário entender que as cotas não são maneiras de inferiorizar os negros ou reforçar o racismo existente. Pelo contrário, é uma forma de reparar o problema da sociedade que impede que os pretos estejam em todos os lugares.
Entretanto, segundo o Ministério da Educação, a política afirmativa de reserva de cotas, implementada em Agosto de 2012, pela Lei n° 12.711, levou cerca de 150 mil estudantes negros para o ensino superior entre os anos de 2013 a 2015. Dados que antes não ultrapassavam 1,8% dos formados pretos.

No mundo ideal, não deveria existir leis para reparar essa desigualdade racial no país. Porém, se essa luta não existisse, provavelmente os amigos negros que você tem na universidade ou trabalho, não estariam lá.

Conhecemos os bandeirantes, mas poucos sabemos dos heróis negros

Muito se fala sobre os heróis patriotas que desbravaram o Brasil atrás de ouro e fortunas. Os bandeirantes são figuras que estão estampadas em diversos pontos estratégicos do país. Em específico, nas regiões mais importantes da cidade de São Paulo. Tendo nomes em avenidas, praças, rodovias e monumentos.

Pois bem, quando se descobre a construção do mito e imaginário dos assassinos e estupradores de índios, saqueadores de aldeias e exterminadores de crianças e escravos fugitivos, se torna impactante saber como um país exclui e veta seu passado obscuro e deixa verdadeiros heróis longe dos livros didáticos e espaços históricos.

Pensando em mostrar verdadeiros ícones do povo brasileiro, separamos 5 figuras negras que você precisa conhecer no mês da consciência negra.

1. Dandara

Muito se escuta falar sobre o Zumbi dos Palmares, porém, pouco se ouve sobre Dandara, uma das mulheres do líder, sendo uma das principais lideranças femininas negras que lutou contra o sistema escravocrata do século XVII, liderando multidões femininas do exército negro de palmares.

Dandara derruba todos os estereótipos de mulher frágil, sendo um símbolo de força, luta e resistência. Empunhando armas, sendo ótima caçadora, – sem contar na habilidade com a capoeira.

Era considerada a face feminina de zumbi. Tanto que estudiosos afirmam que seu amor pela liberdade era tão grande, que a heroína preferiu se matar a perdê-la.

2. Teresa de Benguela

Considerada a rainha do Quilombo de Quariterê, no Mato Grosso, assumiu a liderança do lugar após a morte de seu marido.

Lutou com bravura contra o exército português e foi símbolo de inovação quando levantou a pauta de regulamentar e criar normas para o quilombo.

Teresa foi decapitada após a derrota de seu exército e teve sua cabeça exposta em praça pública como forma de castigo por sua resistência.

No dia 25 de julho, data de sua morte, é considerado o dia internacional da mulher negra latina americana e caribenha no Brasil.

3. Ganga Zumba

Foi tio de Zumbi dos Palmares e reconhecido por ter sido o primeiro líder do Quilombo dos Palmares.

Foi um herói que lutou duas grandes batalhas contra o exército português liderado por Fernão Carrilho, o qual aprisionou muitos guerreiros de palmares.

Ele recebeu proposta de um acordo de paz enviado pelo governador Pedro Almeida. Nele prometia terras, união e um bom tratamento. Além disso, houve  a promessa de liberdade dos negros capturados e nascidos em palmares.

Morreu envenenado por partidários de Zumbi dos Palmares, após retornar a cidade de Recife, onde foi assinar o tratado de paz.

4. Luiza Mahin

Mulher negra africana, importantíssima figura na luta contra a escravidão brasileira. Mãe do poeta e abolicionista, Luiz Gama.

Participou de grandes rebeliões negras no estado da Bahia e Rio de Janeiro. Entre elas a Revolta dos Malês, última revolta escravo da região baiana.

Após escapar da repressão do exército português, fugiu para o Rio de Janeiro, onde também se envolveu em grandes revoltas.

Estudiosos acreditam que Luiza foi capturada e deportada para a África.

5. Luiz Gama

Filho de Luiza Mahin, Luiz Gama foi vendido pelo pai português quando tinha 10 anos de idade. Comprado pelo alferes Antonio Pereira Cardoso. Tinha contato com Antonio Rodrigues do Prado Junior, que ensinou o menino a ler e a escrever.

Fugiu de sua condição de escravo e sendo autodidata, Gama tornou-se advogado e iniciou atividades contra a escravidão. Foi reconhecido por ter conseguido libertar cerca de 500 escravos. O que faz dele um dos maiores símbolos negros do século XIX.

Brasil é resistência

consciência negra

Resistir é uma condição que os negros vivem desde antes da diáspora africana. Evento histórico e sociocultural de imigração forçada de africanos, para fins escravagistas. Contudo, esse fenômeno é o mais admirável dessa etnia. Já não existe momento na história onde não resistiu, lutou e se rebelou contra os maus tratos aos seus corpos.

Estudiosos afirmam que o negro brasileiro foi o mais “rebelde” e inconformado com a sua situação de servidão. Isso comparado com outras regiões do mundo. Essa resistência prova o quanto o amor pela liberdade e desejo de mudança está entrelaçado no DNA da população preta. Por isso, ter a consciência dos seus heróis e suas lutas é tão fundamental. Principalmente no cenário atual do país.

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