Talitha Benjamin

Quais são as heranças da cultura africana para o povo brasileiro

Por causa do racismo estrutural, é comum pensarmos na África como um continente marcado por tragédias e miséria. No entanto, é preciso lembrar que por mais que existam esses fatores negativos – causados em grande parte pela colonização de países europeus -, não se pode ignorar a diversidade e importância da cultura africana para o nosso país.

Para descobrir e entender a história da África, é preciso levar em consideração que tudo que sabemos sobre ela, em geral, é contado pelo olhar branco do Ocidente. Isto é, muito do que a maioria das pessoas sabe sobre esse lugar parte do discurso de uma sociedade estruturada na opressão dos negros.

Leia também: Por que ainda precisamos de um dia da consciência negra?

A África é o berço da humanidade

Por centenas de anos, a ciência estimulou a ideia de que os negros eram criaturas inferiores e incapazes de dar origens à civilizações avançadas. No entanto, estudos e pesquisas mais recentes têm mostrado que, não apenas os primeiros ancestrais do homem surgiram na África, como também as primeiras civilizações inteligentes também foram criadas lá.

O Egito, considerado por historiadores e pesquisadores como o berço das civilizações, sempre fez parte do continente africano, e sua sociedade – formada por pessoas negras, diferente do que vemos no cinema e na televisão – é responsável por inúmeras invenções extremamente importantes para a humanidade: o calendário, a maquiagem para os olhos, o arado (invenção extremamente importante para a evolução da agricultura e utilizada até os dias de hoje), e até mesmo as práticas de cuidado e higiene pessoal como cortar os cabelos e pêlos do corpo e escovar os dentes, por exemplo.

A escravidão e a disseminação da cultura africana

Mesmo antes do início do tráfico de escravos no século 15, o continente africano já era riquíssimo em diversidade, com uma mistura gigantesca de etnias, idiomas, organizações políticas e sociais e economia. A longa, cruel e tortuosa prática econômica da Escravidão foi responsável por destruir a identidade cultural e social dos negros, que eram levados à força para diversos países ao redor do mundo, separados de seus grupos étnicos (o que os impedia de se comunicar), forçados a trabalhar forçadamente para sobreviver.

Mesmo assim, a cultura africana foi sendo preservada às escondidas por escravos corajosos que, mesmo com a repressão do homem branco, conseguiram fazer com que muitos costumes permanecessem, influenciassem e se transformassem até os dias atuais.

Leia também: 130 anos do fim da escravidão: o que aprendemos com isso?

Estima-se que entre 1501 e 1870, mais de 12,5 milhões de pessoas foram traficadas do continente africano para trabalhar forçadamente. O Brasil, colonizado pelos portugueses, foi o país que mais realizou expedições de tráfico de escravos no mundo inteiro.

A cultura da África no Brasil

A cultura brasileira é influenciada fortemente pelo povo africano, que junto com a cultura indígena, europeia e de outros imigrantes, formam a única e extremamente diversa identidade do nosso país.

A influência africana é muito forte na música. O samba, gênero musical brasileiro popular no mundo inteiro, nasceu na Bahia no século 19 e é majoritariamente tocado instrumentos de percussão vindos da África, como tambor, surdo, timbau, pandeiro, entre outros. Na época, quem ousava cantar, dançar ou tocar samba tinha grandes chances de acabar atrás das grades.

Leia também: Samba de roda: O que é, quando e onde surgiu e quais são suas características

A culinária brasileira se desenvolveu muito graças aos africanos. Ingredientes como leite de coco, pimentas, gengibre, milho, feijão preto, carnes salgadas e curadas, quiabo, amendoim, o mel, castanhas, ervas aromáticas e o azeite de dendê eram desconhecidos pelos brasileiros. Hoje em dia, todos esses fazem parte da culinária do nosso país. Vatapá, caruru, caldos, bobó, moqueca e feijoada, além dos doces, canjica, quindim, pamonha e tapioca são alguns dos pratos consumidos em todas as regiões do país e que vieram da África.

A capoeira, mistura de dança com arte de combate, foi a forma de defesa criada pelos escravos. Embalados pelo som do berimbau, fugiam dos olhos atentos dos capatazes que achavam se tratar apenas de uma dança. Deixou de ser proibido apenas em 1920.

As religiões de matriz africana

O número de religiões praticadas na África era muito grande e, ao chegarem aqui, os africanos foram separados de sua família, amigos e vizinhos próximos. Por essa razão, passaram a se reunir com pessoas de religiões e etnias diferentes para manterem viva a sua fé e para praticarem suas práticas religiosas secretamente. Essas reuniões misturavam rituais, crenças e práticas de diversas religiões. Assim surgiu na Bahia o Candomblé, e no Rio de Janeiro a Umbanda, que une também práticas do Catolicismo.

Por causa da forte influência do Cristianismo no Brasil, as religiões de matriz africana são alvo de grande preconceito e intolerância religiosa, sendo erroneamente associadas à práticas malignas.

Apesar de muito influente na cultura, e de fazer parte da identidade brasileira, a importância da África para nós é frequentemente ignorada por pesquisadores, historiadores e educadores, herança de uma mentalidade racista. Por essa razão, a Lei 10.639/03 propõe um novo olhar sobre o estudo da história e cultura afro-brasileira, para considerá-la formadora da sociedade brasileira e extremamente importante para a formação do país.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *