Talitha Benjamin

O que é racismo de intimidade?

discriminação racial

Mais de um século após a abolição da escravidão, o Brasil continua sendo um país onde o racismo segue enraizado em todas as instituições, ou seja, é estrutural. Sendo assim, a discriminação racial acontece de diversas formas, com muitas profundidades, mas todas elas tem efeito negativo na pessoa negra. Uma dessas formas é o racismo de intimidade.

Por causa do mito da democracia racial, a mentalidade brasileira acredita na ideia que o racismo acontece apenas no casos de ataques e ações explícitas de segregação. No entanto, os efeitos colaterais dessa opressão na vida dos negros – que inclui desigualdade política, social e econômica -, são negados de forma sistemática. O racismo de intimidade é um termo que explica casos nos quais a relação entre o indivíduo branco e o indivíduo negro, apesar de conter afetividade, amor e respeito, consegue, ainda sim, ser racista.

O racismo e o afeto

O conceito de racismo de intimidade, especialmente em famílias inter-raciais, é amplamente discutido e analisado no estudo de pós-doutorado da pesquisadora e psicóloga social Lia Vainer Schucman. Na pesquisa, Lia procurou analisar como os preconceitos e hierarquias raciais interagem em famílias, nas quais pelo menos um membro de raça se autodeclara de uma raça diferente da dos demais.

Diferente das práticas segregacionistas infames de países como Estados Unidos e África do Sul, o que se criou no Brasil foi um “racismo de intimidade”. Foi possível observar que, dentro de famílias inter-raciais, a questão racial pode ser abordada tanto através da discriminação explícita e brutal, com manifestações de violência, quanto através de negações de identidade racial sutis mediadas pelo afeto e carinho.

No estudo, Lia cita exemplos onde familiares brancos reproduzem ofensas racistas, utilizando de falas e apelidos humilhantes para atingir um membro da família mais “escuro”, mas que não necessariamente era visto como pessoa negra. Há também ocasiões onde uma mãe branca nega veementemente a negritude de seu filho a quem costuma dar mais afeto e amor, para não atribuir a ele o “defeito” de ser negro.

Lia explica em sua pesquisa que, na maioria das vezes, quando se trata de pessoas brancas em famílias inter-raciais pobres, a sua cor de pele acaba sendo a única característica que as separa da miséria dos demais. Portanto, a branquitude é reafirmada através do racismo. Um dos pioneiros em estudos críticos à branquitude, William Du Bois, explicou que esse comportamento acontece pelo fato de que às pessoas brancas são atribuídos privilégios simbólicos, independente de sua classe social. Por exemplo, uma pessoa branca pode viver na miséria, mas mesmo assim, a sua cor de pele o aproxima dos mesmos privilégios dos quais goza o branco rico. Du Bois chamou esse fator de “salário público e psicológico”.

A negação da negritude

A pesquisa também mostrou as formas mais sutis do racismo de intimidade, onde a negação da identidade de um familiar negro é necessária para que as pessoas brancas consigam amá-lo. Dessa forma, a pessoa negra precisa abrir mão de sua identidade racial para que continue recebendo e legitime o afeto recebido por quem ama.

A conclusão da pesquisa aponta que, no Brasil da democracia racial, é possível ser antirracista, achar que o preconceito precisa ser combatido, casar-se com ou ter um filho negro e, ainda assim, ser racista. Isso se deve ao fato de que, na hierarquia racial que domina todas as relações e instituições brasileiras, o fenótipo branco é favorecido e considerado superior ao fenótipo negro. O cabelo liso, o nariz fino, a pele clara são traços considerados mais agradáveis e influenciam diretamente no tratamento que se dá ao ser humano.

No entanto, da mesma forma que famílias inter-raciais podem ser estruturas e perpetuarem o racismo, elas também têm o grande potencial de serem espaços seguros para desconstruí-lo.

Abordar a diversidade e as diferenças com franqueza e empatia é essencial para que a identidade racial, e todo o contexto que ela carrega, sejam trabalhados com todos os membros familiares, especialmente com crianças.

É necessário que o indivíduo e sua identidade sejam aceitos e respeitados pelos familiares, em um ambiente de dignidade e respeito à negritude.

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