Tayla Pinotti

Por que precisamos falar sobre educação sexual nas escolas

Educação sexual na escola

Doenças sexualmente transmissíveis, aparelho reprodutor, métodos contraceptivos e desenvolvimento do feto: é assim que crianças e adolescentes aprendem questões relacionadas a sexo nas escolas.

Os assuntos envolvendo sexualidade foram incluídos como “temas transversais” nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), lançados pelo Ministério da Educação entre 1995 e 1998. No entanto, mais de 20 anos depois, ainda vemos uma lacuna no sistema educacional brasileiro em relação a este tipo de conteúdo.

Isso porque em muitas instituições de ensino, a educação sexual ainda é reduzida ao contexto biológico reprodutivista, enquanto todo panorama social é ignorado, estabelecendo para os alunos um conceito totalmente distorcido do que, de fato, é sexualidade.

De acordo com a psicóloga e sexóloga Sônia Eustáquia, a sexualidade é algo inerente à vida humana, podendo ser definida como o eixo sobre o qual a concepção a respeito das pessoas é formada.

Justamente por isso, não basta apenas incluir nas escolas aulas em que o sexo é abordado de forma científica. “O ideal é construir um espaço acolhedor que gere reflexão, tire dúvidas e que passe informações que ajudem nas vivências e manifestações da sexualidade, levando em conta condicionantes culturais, sociais, políticos e históricos”, declara.

Antes de mais nada, é importante deixar claro que educação sexual não é sobre ensinar crianças a fazerem sexo e sim sobre construir relações humanas, ajudar na prevenção e no combate de problemas como a violência sexual, além de outras questões mais complexas.

Mas, afinal, por que precisamos falar sobre educação sexual nas escolas?

– Porque a educação sexual ajuda a combater a violência sexual infantil

Caracterizada por um tipo de abuso em que crianças e adolescentes são usados para gratificação sexual de adultos, sendo induzidos ou forçados a práticas sexuais, a violência sexual infantil é um problema que afeta, principalmente, crianças de 1 a 5 anos.

A educação sexual tem papel fundamental no auxílio à formação do conceito de sexualidade, fazendo com que a criança entenda que é um ser autônomo e que ela não deve ser manipulada por outras pessoas.

Além disso, a discussão do assunto em sala de aula pode ajudar no entendimento da criança ou do adolescente sobre o conceito de abuso ou até mesmo fazer com que ela se sinta confortável para denunciar algum tipo de violência, caso ela esteja passando por isso.

– Também ajuda no combate a cultura do estupro

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública calcula que aconteçam, em média, 164 casos de estupro no Brasil por dia. Esse dado, que é bastante assustador, deixa claro que a cultura do estupro está enraizada na sociedade.

A diferença na hora de educar meninas e meninos sobre sexualidade é um dos fatores que contribuem para a cultura do estupro, já que o sexo masculino é sempre associado à força, agressividade e falta de sensibilidade, enquanto o feminino é o oposto.

“Podemos citar o fato de que no Brasil é comum que familiares incentivem os meninos a terem contato com material pornográfico desde a pré-adolescência, ou até mesmo que os levem a profissionais do sexo para que sejam ‘iniciados’ sexualmente. O quadro geral é assustador”, lamenta Sônia Eustáquia, que acredita que a educação sexual deveria ser a mesma para meninos e meninas.

Para a sexóloga, é necessário quebrar os estereótipos de masculinidade e feminilidade para que ambos os sexos possam desfrutar de sua sexualidade da melhor forma, sem que isso traga consequências drásticas no futuro.

– É uma forma de evitar o alto índice de gravidez na adolescência

Em muitas instituições de ensino, as questões de sexualidade são ignoradas ou apresentadas somente no ensino médio ou fundamental. Isso porque muitos docentes acreditam que a puberdade seja o momento propício para abordar o assunto.

No entanto, é preciso lembrar que a sexualidade se manifesta já na infância e que esperar para discutir “sexo” apenas na adolescência reflete uma visão limitada, já que se baseia na crença de que a iniciação sexual é possível somente a partir da capacidade reprodutiva.

Ao postergar as questões de sexualidade, o risco de ver uma jovem grávida aumenta, já que estas meninas não foram instruídas na escola e muito menos em casa. Neste sentido, a educação sexual é fundamental para evitar o alto índice de gravidez na adolescência.

– Auxilia no respeito à diversidade

Para Sônia Eustáquia, a escola é uma grande aliada para explicar questões de diversidade porque isso ajuda a evitar que os alunos futuramente reproduzam falas ou atitudes preconceituosas contra gays, lésbicas, trans e pessoas que fujam do padrão heteronormativo.

O ideal é que o professor aborde esses temas de forma imparcial. Uma dica da sexóloga é incluir a temática em uma aula sobre ética e cidadania, falando sobre diversos temas envolvendo preconceito.

Abordar a diversidade sexual em sala de aula é uma ótima forma de incentivar o respeito à pessoas que sofrem diariamente algum tipo de intolerância.

– Ajuda a construir uma ideia saudável de sexo

O sexo está em todos os lugares: nas novelas, nos comerciais, nas revistas e na internet. Durante a infância e a adolescência, muitas crianças e jovens se depararam com assuntos relacionados à sexualidade por todos os lados, mesmo que não queiram.

Além disso, é fato que, durante a adolescência, a maioria dos meninos consome conteúdo erótico, o que faz com que eles cresçam com uma ideia totalmente distorcida do que é sexo.

Justamente por isso a educação sexual se faz tão importante. É a partir dela que os jovens podem construir uma imagem real do que é sexo, entendendo também todas as questões de sexualidade.

– É fundamental para construção do ser humano e das suas relações

Apesar da palavra “sexualidade” remeter ao ato sexual, as duas coisas não são iguais. Isso porque a sexualidade é a forma como as pessoas de relacionam, seja com amigos, com a família ou com os “paqueras”.

Quando uma pessoa cresce com uma ideia positiva de sexualidade, no momento em que ela conhece seu próprio corpo, seus prazeres e sua liberdade, ela também se sente mais à vontade para se relacionar com quem está ao seu redor.

Isso porque o papel da educação sexual também é evitar que pessoas cresçam reprimidas e inibidas sobre suas emoções e relações.

Desafios no cenário atual

educação sexual

Apesar da educação sexual estar nos Parâmetros Curriculares Nacionais, Sônia lembra que, no presente momento, devemos aguardar as novas recomendações do MEC em relação ao assunto, já que a inclusão de temas relacionados à sexualidade ainda é discutida pela pasta.

Além disso, não podemos esquecer que, apesar de haver um número considerável de professores que passaram por algum tipo de capacitação para lidar com o tema, muitos ainda não estão preparados para abordar questões em sala de aula.

“Devido às aceleradas mudanças socioculturais e comportamentais que contrapõe valores tradicionais e influenciam consideravelmente as gerações mais novas, muitos educadores ainda estão confusos e, por isso, se omitem. Entretanto, a escola não pode abrir mão de sua função e deixar de abordar o tema levando em conta aspectos sociais de forma afetiva e inclusiva”, comenta a sexóloga.

Sônia acredita que, se o professor não for competente o suficiente, é melhor que não aborde essas questões para evitar falas preconceituosas. É importante que os educadores jamais coloquem opiniões pessoais ou políticas enquanto estiver falando sobre sexualidade.

Também é preciso ter cuidado para não cair em polêmicas, já que elas podem ser baseadas em conceitos religiosos, em crenças, preconceitos e tabus.

Outro ponto que dificulta a educação sexual nas escolas é a rejeição por parte dos pais, já que a família ainda acredita que, ao falar sobre sexualidade, crianças e adolescentes estarão sendo incentivados a praticarem atos libidinosos quando, de fato, não é isso que acontece.

Mas o papel de educar sexualmente não é da família?

Teoricamente, a família deveria ser a responsável por sanar as dúvidas das crianças e adolescentes. No entanto, na prática, ainda vemos pais despreparados e inibidos quando se deparam com os questionamento dos filhos.

O papel principal de mães e pais é fornecer as primeiras informações diante das perguntas das crianças e adolescentes, além de orientá-los de acordo com suas necessidades. O ideal seria que a família tentasse preencher todas as lacunas e responder as perguntas da forma que julgarem mais adequadas e, quando sentissem necessidade, buscassem especialistas.

Para a psicóloga e sexóloga Sônia Eustáquia, grande parte das crianças recebe os valores e alguma orientação em casa, mas é na escola que elas têm oportunidade de colocá-los em discussão, além de conhecer outros valores que tangem a sexualidade. “A diversidade do ambiente escolar é muito valiosa”, afirma.

Diante disso, a escola pode se tornar uma alternativa para jovens que estão descobrindo questões inerentes à sexualidade e querem trocar ideias (e futuramente experiências, por que não?) sobre o assunto.

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