Mulheres invencíveis: Elke Maravilha, modelo, artista e jurada

Desenho da Elke Maravilha

Icônica tanto no visual, quanto nos ideais, Elke Maravilha tornou-se uma personalidade da cultura brasileira. Assim como Carmen Miranda, que nasceu em Portugal e se tornou um símbolo do Brasil, Elke nasceu na Alemanha (apesar de alegar ter nacionalidade russa), chegou a ser apátrida, mas nutriu um grande amor pelo território brasileiro desde criança.

Apesar de ter cursado filosofia, medicina e letras, o destino a levou para outros caminhos ligados à arte e à moda. Mesclando elementos tribais e futuristas e, muitas vezes aderindo a uma caracterização andrógina, Elke desenvolveu um estilo singular de vestir-se e pentear-se que, para muitos, chegava a ser um visual “estanho”.

Mas, Elke não ligava. Em entrevista à Folha de S.Paulo, a artista disse, aos 70 anos de idade: “Não interpreto alguém que não sou. Não é fantasia, é o que eu uso. Fantasia é vestir uma roupa no Carnaval e, na quarta-feira de cinzas, despi-la”. Ela ainda dizia que a moda contemporânea era como uma espécie de prisão: “Não gosto de uniforme”.

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Além da aparência extravagante, Elke também ganhou notoriedade por ter o anarquismo como orientação política e filosofia de vida, não à toa, foi considerada uma pessoa libertária e muito à frente do seu tempo. Apesar de icônica, porém, após sua morte, o jornalista e escritor Chico Felitti descobriu que Elke criou uma série de mitos sobre a própria vida.

Chico, que foi o biógrafo da modelo, afirma que, além de não ser fã de entrevistas por não gostar de falar da sua vida pessoal, Elke também odiava a ideia de ter uma biografia. Não coincidentemente, o jornalista constatou que ela acrescentava mais “glamour” à algumas passagens marcantes de sua vida.

Infância e juventude

Apesar de alegar ter nascido em Leningrado – atualmente São Petersburgo -, na Rússia, uma certidão de nascimento enviada à Chico por um antigo professor mostra que, na verdade, Elke nasceu em Leutkirch im Allgäu, na Alemanha – história que foi confirmada pelos próprios irmãos da artista.

Registrada como Elke Georgievna Grünupp, seu nascimento fora em 22 de fevereiro de 1945 e sua vinda para o Brasil foi bem cedo: quando tinha cerca de 6 ou 7 anos de idade, sua família emigrou para fugir da pobreza causada pela Segunda Guerra Mundial. Elke, os pais e os irmãos se estabeleceram em um sítio em Itabira, em Minas Gerais.

Com o passar dos anos, a família também se alocou em Atibaia e Bragança Paulista, ambas as cidades em São Paulo, mas retornaram à Minas em meados de 1960. Em 1962, aos 17 anos, Elke foi a vencedora do concurso “Glamour Girl”, em Belo Horizonte. Neste mesmo período, a modelo foi naturalizada brasileira.

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Quando completou 20 anos, ela saiu de casa para morar no Rio de Janeiro sozinha. Lá, ela conseguiu seu primeiro emprego como secretária trilíngue – Elke falava 9 idiomas: russo, português, alemão, italiano, espanhol, francês, inglês, grego e latim, muitos deles aprendidos no ambiente familiar, já que o pai era russo e a mãe alemã.

Depois, foi a professora de francês mais jovem da Aliança Francesa e de inglês na União Cultural Brasil–Estados Unidos. Em meados de 1966, porém, Elke voltou a voltar com a família que, na época, estava em Porto Alegre. Foi na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) que cursou filosofia, letras e medicina, mas se formou como tradutora.

Carreira como modelo

Apesar de negar os traços europeus, Elke tinha uma beleza considerada “exótica” para os padrões do Brasil. Chamando atenção por medir 1,80m e ter cabelos loiros naturais, muitas pessoas incentivaram a carreira de Elke como modelo, em especial seu primeiro marido, o escritor grego Alexandros Evremidis – ela se casou 8 vezes, no total.

O casal, que se conheceu quando a artista passou 1 ano na Grécia, veio para o Brasil em 1969, quando Elke tinha 24 anos. Já no Rio de Janeiro, Alexandros incentivou a esposa a procurar o estilista Guilherme Guimarães, que logo convidou a artista para participar de um desfile, embora ela não soubesse desfilar.

Inicialmente discreta e em um meio onde tudo era muito novo, com o tempo, a modelo foi abrindo espaço para sua extravagância, o que fez com que muitos costureiros e estilistas “entrassem na sua onda” e desenhassem modelos baseados no seu estilo extravagante e sua proposta estética.

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Assim como Alexandros previu, Elke se tornou uma das mais emblemáticas manequins do país. Já no início da carreira, a modelo conheceu a estilista Zuzu Angel, de quem se tornou uma grande amiga. Elke chegou a ser presa por desacato no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, após rasgar cartazes com a foto do filho de Zuzu, que havia sido morto pelo regime militar.

O episódio aconteceu em 1971, durante a ditadura, o que fez com que a artista fosse enquadrada na Lei de Segurança Nacional e perdesse sua cidadania brasileira, ficando apátrida (aquele que se encontra oficialmente sem pátria). Elke foi solta depois de seis dias graças à intervenção de amigos da classe artística.

Televisão, cinema e teatro

Foi na televisão que o “personagem” Elke Maravilha, apelido que recebeu do jornalista Daniel Más, nasceu por completo. A modelo tornou-se uma figura popular na TV brasileira durante os anos 70 e 80, após ser convidada para ser jurada de programas de calouros como Chacrinha e Silvio Santos.

“O Painho se encantou comigo e eu com ele”, dizia Elke sobre Chacrinha, com quem trabalhou durante 14 anos. Foi também em seu programa que a modelo passou a aparecer usando roupas e perucas chamativas, que vieram a se tornar sua marca registrada. Ela também cativou os espectadores com seu bom humor e com mensagens positivas que passava na telinha.

Já como atriz, teve seu primeiro trabalho em 1971 no filme “O Barão Otelo no Barato dos Bilhões” e, posteriormente também atuou em filmes como “Pixote”, “Quando o Carnaval Chegar” e “Xica da Silva” – neste último, foi premiada com a Coruja de Ouro como melhor atriz coadjuvante.

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No cinema, também ganhou filmes sobre si: “Elke Maravilha Contra o Homem Atômico” (1978), “Elke” (2007) e “Elke no País das Maravilhas”. Como atriz de teatro, participou de diversas peças como “A Paixão de Cristo” e “Carlota Joaquina”.

Na televisão, sua estreia como atriz aconteceu somente em 1986, onde interpretou a dona de um bordel na minissérie “Memórias de um Gigolô”. A atuação lhe rendeu um convite para ser madrinha da “Associação das Prostitutas do Rio de Janeiro”. Em 1993, estreou o “Programa da Elke”, recebendo personalidades para entrevistas e bate-papos.

Músicas gravadas e falecimento

Além de modelo, atriz, apresentadora e jurada, Elke também era intérprete musical. Em 2012, por exemplo, foi convidada para gravar a canção “O Xote das Meninas” (de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1953) para o álbum triplo 100 anos de Gonzagão.

Muito antes, porém, em 1972, já tinha feito sua primeira gravação profissional registrando a “Marcha da Zebra” para o álbum “Folião Rio, Carnaval e Amor”. A modelo também deu voz, em 1976 à duas músicas dos compositores Rogê e Leonete, “Gira Roda” e “Juju”, para o álbum duplo Carnaval, “Amor e Fantasia”.

Já no fim da carreira, a apresentadora teve dois espetáculos de teatro autorais, nos quais atuava e cantava: “Elke – do Sagrado ao Profano”, em 2005 e “Elke Canta e Conta” (espetáculo comemorativo dos 70 anos da artista), em 2015, um ano antes de sua morte. Elke Maravilha faleceu no dia 16 de agosto de 2016, aos 71 anos, vítima de falência múltipla de órgãos.

Ela havia sido internada Casa de Saúde Pinheiro Machado, em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio, no dia 20 de junho para uma cirurgia para tratar a úlcera. A artista não reagiu bem aos medicamentos que precisou tomar. Por já ter a idade avançada e diabetes, a artista não resistiu e morreu.

Elke Maravilha deixou um grande legado e muitos ensinamentos:além dos múltiplos talentos já listados, a icônica artista foi defensora da causa LGBT, dos direitos das mulheres, da liberação do aborto e das drogas.

Mulheres inspiradoras elke maravilha

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