Talitha Benjamin

“Minha ex é louca”: entenda porque essa fala é problemática

Ex louca entenda porque isso acontece com a mulher quando ela termina um relacionamento

Você começou a sair ou namorar com um homem e conversas sobre os relacionamentos passados começam a surgir. Com frequência, o passado afetivo dele inclui uma (ou mais de uma) ex-namorada ou esposa com comportamentos questionáveis, ciúmes excessivos, dependência extrema, surtos e acessos de raiva, que acabaram por culminar no fim do relacionamento. Em determinado momento, ele solta a clássica frase “minha ex é louca” para justificar o término ou brigas durante o relacionamento e você começa a se questionar que tipo de pessoa esse cara namorava.

Sim, quase toda mulher que se relaciona com homens já passou por essa situação, que é muito mais comum do que se imagina. No entanto, é preciso lembrar que não dá para ouvir esse tipo de discurso sem levar em consideração o sempre presente desequilíbrio de poder que existe em relações heterossexuais, que podem interferir em comportamentos entre o casal.

O machismo presente nas relações heterossexuais

Entender por quais motivos a frase “minha ex era louca” e o discurso que a acompanha são tão problemáticos, é preciso entender uma série de fatores que envolvem uma relação afetiva. Em primeiro lugar, o machismo presente nas relações heterossexuais impõe uma certa forma de agir, tanto para o homem quanto para a mulher. Para a mulher fica reservada a submissão ao parceiro, e para o homem, uma liberdade velada para fazer o que que quiser.

Em geral, os comportamentos machistas precisam ser justificados de alguma forma, é aí que entra a manipulação. Nesse tipo de relação, é comum que o ciúmes excessivo, a possessão e o freio na liberdade individual da mulher sejam vendidos como demonstrações de amor e carinho, e não como atos machistas e abusivos.

O abuso emocional e psicológico

O abuso emocional e psicológico consiste em palavras e atitudes que tem como objetivo desqualificar e diminuir as emoções e a autoestima da mulher. Eles podem se manifestar em um comentário maldoso e destrutivo, passando pelo desprezo e indo até o desrespeito verbal, a sós ou na frente de outras pessoas. Esse tipo de abuso com frequência envolve uma técnica que chama-se gaslighting, que consiste em manipular as emoções a ponto de fazer a mulher duvidar da sua própria consciência dos fatos.

Isso dá início ao ciclo de um relacionamento abusivo. Em geral, uma mulher presa em um relacionamento onde há abuso emocional não consegue agir racionalmente na hora de analisar o comportamento do parceiro, já que as justificativas sempre giram em torno de “você não sabe do que está falando”, ou “isso nunca aconteceu”, e por aí vai.

Isso não quer dizer que comportamentos tóxicos e abusivos partem exclusivamente de homens. O problema está em como a falta de sanidade e desequilíbrio emocional e mental é usado com frequência por homens para descrever um relacionamento onde, se pararmos para analisar, não acabou por culpa apenas da mulher.

Desde que o mundo é mundo, questionar a sanidade das mulheres é a primeira alternativa usada para colocar as emoções e vivências femininas em descrédito. No caso de um homem que chama a ex-parceira de “louca”, “desequilibrada”, ou “surtada”, difamá-la para as pessoas conhecidas e até para as próximas parceiras significa isentar-se de sua parcela de culpa no fim do relacionamento, e até mesmo para esconder comportamentos machistas, abusivos ou tóxicos.

É normal, que, após um término, a pessoa se sinta injustiçada e tende a espalhar a narrativa de que a culpa foi do parceiro(a). No entanto, há dinâmicas dentro de um relacionamento que não podem ser ignoradas, nem tão pouco pode-se ignorar o papel de duas pessoas como sujeito ativo de tudo o que aconteceu. Até mesmo para que o relacionamento atual se desenvolva com saúde, é preciso analisar os fatos de forma imparcial, sempre tomando responsabilidade pelos próprios atos, e acima de tudo, mantendo um diálogo aberto com todos os envolvidos.

Dessa forma, seja você uma mulher declaradamente feminista ou não, se questionar sobre os discursos da pessoa com quem você está se relacionando é essencial não apenas para fugir de possíveis ciladas, mas também para desestimular a competição entre mulheres, principalmente quando se trata de “ex” e “atuais”.

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