O que é o movimento blaxploitation?

Por: Luana Queiroz
Blaxploitation
Conheça o movimento que trouxe protagonismo negro para as telonas

O cinema exerce um papel importante na sociedade, que vai além do entretenimento, e serve como um espelho da realidade e instrumento de discussão social. De maneira sutil ou mais evidenciada, o cinema acaba por registrar, denunciar e mostrar potenciais mudanças que estejam acontecendo durante determinado período histórico.

Na década de 1960, nos Estados Unidos, explodiu a revolução dos direitos civis e toda a força do movimento negro se tornou destaque. Esse novo cenário não impactou apenas a política, mas também a cultura do país, principalmente o cinema. 

E foi nesse contexto que começou a se articular um movimento cinematográfico que buscava um protagonismo negro na frente e atrás das câmeras. Assim, no início da década de 1970, surge o blaxploitation.

Blaxploitation e o protagonismo negro

O blaxploitation nasceu inspirado nos race films, nome pejorativo que era usado para classificar produções cinematográficas negras entre as décadas de 1910 e 1950 que, geralmente, estrelavam elencos totalmente pretos.

Como o nome sugere, black (negro) e exploitation (exploração), os filmes blaxploitation traziam o protagosnismo negro de ponta a ponta do processo, ou seja, havia atores e diretores negros, tendo como público-alvo os negros norte-americanos.

Agora, nos filmes blaxploitation, os negros não mais ocupavam papéis secundários ou só apareciam como vilões. A partir do seu ponto de vista, o negro no cinema era protagonista, com personalidade e atitude, ocupando a posição de heróis e anti-heróis.

Características dos filmes blaxploitation

Um grande ponto de destaque do blaxploitation era o humor, embora ele viesse imerso no contexto social da comunidade negra, como racismo, violência e pobreza. Ou seja, havia comicidade e ironia para retratar situações que a audiência se identificava.

Outro elemento marcante dos filmes blaxploitation era a trilha sonora, fazendo, pela primeira vez, o funk e o soul ganharem notoriedade na sétima arte. As trilhas eram compostas por músicos e produtores musicais consagrados da música negra norte-americana, como Curtis Mayfield, Isaac Hayes, James Brown, Quincy Jones, Barry White e Marvin Gaye.

E como outros grandes movimentos artísticos, o blaxploitation tinha uma estética própria, com cores berrantes, longas perseguições, humor chulo, heróis com caráter duvidoso e muita violência. 

E o herói no blaxploitation foge à regra comumente vista e retrata um protagonista menos maniqueísta (com dualidade básica entre opostos, como bem e mal) e que sempre duvida de regras e leis vigentes.

filmes de negros
O blaxploitation deixou um grande legado para o cinema mundial

Grandes nomes do blaxploitation

Com seu jeito peculiar de fazer arte, o blaxploitation trouxe notoriedade para o cinema negro norte-americano e grandes nomes e filmes sugiram com a sua ascensão, tornando-o um importante movimento cultural.

As atrizes Pam Grier e Tamara Dobson marcaram época com personagens-heroínas, tornando-se grandes divas do blaxploitation, nos filmes Foxy Brown (1974) e Cleópatra Jones (1973), respectivamente.

Entre os homens, grandes nomes surgiram, como  Ron O`Neil, Richard Pryor, Max Julien, Antonio Fargas e Melvin Van Peebles, mas um dos mais lembrados é Richard Roundtree pela atuação em Shaft’s Big Score!, de 1972.

Aliás, Shaft’s Big Score! ficou marcado na história do blaxploitation porque o diretor, Gordon Parks, foi o primeiro negro a assinar a direção de um filme com um grande estúdio. Além disso, Parks dirigiu outra importante obra do movimento, Super Fly, também de 1972. 

Influência e referência para o cinema

O sucesso do blaxploitation não se restringiu apenas aos anos 70, muito pelo contrário. Além de abrir espaço para um verdadeiro cinema negro, o blaxploitation também abriu portas e inspirou uma série de diretores ao longo da história.

Um dos nomes de maior referência e grande legado para o blaxploitation é o diretor Spike Lee e seus filmes protesto da década de 1980, que traziam temas como opressão racial e conflitos dentro da própria comunidade negra. Deste período, seu filme mais lembrado é Faça a Coisa Certa, de 1989, que foi indicado a dois Oscars, incluindo o de Melhor Roteiro Original.

E as características dos filmes blaxploitation ainda ecoam, nos dias de hoje, em obras de diretores famosos, como Quentin Tarantino. Uma das obras que mais traz o clima do movimento é o seu longa Jackie Brown (1997), que traz a grande diva Pam Grier no papel principal da trama.

É notório que o blaxploitation revolucionou o cinema norte-americano e colocou os holofotes no cinema negro, com artistas negros como protagonistas das produções audiovisuais. Ainda que se questione a qualidade e relevância que essa inclusão acontece, é inegável o legado do movimento até hoje.

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