Por que devemos parar de tratar mulheres como centro de reabilitação

Por: Talitha Benjamin
Mulheres centro reabilitação

As mulheres cumprem um papel muito importante na nossa sociedade, afinal, são capazes de gerar uma vida. Por causa dessa função, desde o nascimento, elas são encorajadas a nutrir um instinto materno, que fará com que ela se transforme em uma criatura protetora, que acolhe e cuida de todos que precisem de apoio.

A problemática dessa situação é que o machismo impõe esse instinto de forma opressora, fazendo com que ele vá muito além da maternidade. O instinto maternal e protetor que é esperado das mulheres se estende para todos os relacionamentos, em especial, o romântico.

Dizer que mulheres não são centros de reabilitação significa desafiar o papel da mulher na sociedade e, por isso, já é uma afirmação revolucionária por si só. Maridos, filhos, pais, amigos e todas as outras figuras masculinas procuram na figura da mulher um amparo, redenção e refúgio (seja ele sexual ou emocional) quando se encontram carentes, frustrados, raivosos.

As mulheres não podem ser responsáveis por “restaurar” homens problemáticos

Não, esse conceito é mais um “mimimi” do feminismo. O instinto materno da mulher e seus efeitos na vida prática deste grupo tem sido estudado há muitos anos, como por exemplo, pelo psicanalista e educador inglês Donald Winnicott, que cunhou o termo “mãe suficientemente boa”. Esse termo serve para definir mulheres, no caso mães, que, ao mostrarem estarem sempre disponíveis e responderem imediatamente às necessidades dos filhos, lhes dando a sensação de que ela é quem supre todas as suas necessidades e estará sempre disponível para tal função.

Isso pode ser observado com muita frequência em relacionamentos. Quantas vezes a mulher é vista como o refúgio do seu parceiro, a responsável por confortá-lo, que precisa adaptar-se às suas necessidades de modo a deixá-lo sempre à vontade, feliz e satisfeito?

Partindo do mesmo conceito, as mulheres são encorajadas a serem tolerantes e compreensivas com seus parceiros, mesmo quando a atitude destes extrapola os limites do aceitável. Na cultura brasileira, por causa do machismo, esse conceito é bastante incentivado. Mulheres devem largar seus próprios sonhos para apoiarem seus parceiros e acompanharem onde ele precisa ir.

Se seu marido tem vontade de ter filhos, é seu dever gerá-los. Se seu marido está passando por algum problema familiar, você deve interferir para ajudá-lo a resolver qualquer tipo de conflito. Se está passando por problemas pessoais e te trata mal, cabe a você entender o porque ele age dessa forma sem julgamento, e obviamente, ajudá-lo.

Um relacionamento é uma parceria, e não uma sessão de terapia

É fato de que as necessidades emocionais das mulheres costumam ser negligenciadas e até mesmo ridicularizadas. Dentro de um relacionamento, por exemplo, é comum que ela seja utilizada como “degrau”, estando presente para o auxílio e desenvolvimento do parceiro. No entanto, assim que este se encontra em uma situação melhor, acaba seguindo em frente. E a mulher, que pausou a sua vida e deixou de lado seus sentimentos e necessidades, encontra-se no mesmo lugar onde parou.

Um relacionamento só funciona se for tratado como uma parceria – onde ambos os envolvidos se dedicam igualmente para fazê-lo funcionar. Isso significa comprometimento, paciência, respeito, compreensão, sacrifícios de ambas as partes em medidas iguais. Mulheres não têm o dever de salvar ninguém. Você pode ser companheira, apoio, amiga, conselheira – mas nunca pode ser a alavanca de ninguém.

Em uma sociedade onde a romantização da mulher que abre mão de si para salvar a pessoa que ama ainda é aclamada e acatada por muitas pessoas como um exemplo de um bom relacionamento, amar e respeitar a si mesmo é o primeiro passo para garantir o seu bem-estar, e mais importante, a sua liberdade.

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