Talitha Benjamin

Negras de cabelo liso: sou “menos negra” por alisar o cabelo?

Negras de cabelo liso

O cabelos crespo é uma característica forte da beleza negra – apesar da miscigenação no Brasil não deixar isso ser regra. Nos últimos anos, o número de mulheres negras que assumiram seus cabelos naturais aumentou muito, graças à uma tendência de mercado que abraçou esse tipo de fio, mas as negras de cabelo liso ainda existem – e acredite, sofrem muito preconceito por isso.

É fato que, por muitos anos, quem não tinha madeixas lisas costumava sofrer por aqui. Isso porque os fios crespos e cacheados não fazia parte do padrão de beleza feminino no Brasil e, por essa razão, a pressão para alisar o cabelo era grande. Hoje em dia, as discussões sobre racismo ampliaram a aceitação das madeixas naturais, há muito mais abertura do mercado de cosmético para esse tipo de fio, mas mesmo assim, há mulheres negras que, por qualquer que seja a razão, preferem continuar alisando os fios – e tudo bem.

Alisar o cabelo é abrir mão do empoderamento negro?

O racismo e o machismo se manifestam de diversas formas na sociedade, e uma delas é através da imposição de uma beleza eurocêntrica – branca, loira, de traços finos e cabelos lisos – para a mulher negra, que naturalmente não atende à esses padrões. Por essa razão, deixar os cabelos crespos e cacheados crescerem livremente, sem alisar, simboliza um ato de resistência para essas mulheres que, por muitos anos, sofreram danos graves à sua autoestima por não atenderam ao padrão do cabelo liso.

No entanto, apesar das negras empoderadas de cabelo liso representarem muito bem o que significa se libertar da imposição social, não podemos deixar de considerar um fato muito importante: a beleza é uma coisa relativa e não são todas as mulheres negras que se sentem confortáveis ou que se sentem bonitas com seus fios naturais.

Empoderar-se significa tomar consciência de si mesmo enquanto sujeito social e político. No caso do cabelo, é desconstruir ideais de beleza moldadas por muitos séculos de discriminação pela estética negra. É entender que o cabelo crespo, assim como os outros traços negros, são historicamente hostilizados. O jeito de usar o cabelo, independente de qual for, não apaga a resistência diária da mulher negra, sobrevivente de uma sociedade onde o racismo se encontra em todas as esferas sociais.

O empoderamento transcende a estética, apesar desta ser extremamente importante para a manutenção da autoestima do povo preto. Empoderar-se é ter consciência de que apenas unindo-se contra o racismo estrutural é que se pode combatê-lo e de todas as imposições estéticas que se baseiam nele. As negras de cabelo liso, apesar de se adaptarem ao padrão capilar imposto, ainda continuam sendo mulheres negras, e isso não se muda com nenhum método de alisamento.

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