Tayla Pinotti

Orgulho LGBT: histórias inspiradoras de pessoas que assumiram a homossexualidade

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“Uma coisa sobre se assumir homossexual que ninguém conta é que você não precisa sair do armário só uma vez, mas, sim, a vida inteira: a cada mudança de emprego, a cada círculo social novo, a cada curso que você investe faz com que, mais uma vez, você precise olhar ao seu redor para saber se as pessoas vão te aceitar”.

A fala acima é do profissional de marketing Mauro de Bias Almeida, que hoje se declara “gay, sim, orgulhoso, sim”, apesar de ter sofrido com preconceito durante toda infância e adolescência, além de ter passado pela chamada “cura gay”.

Hoje, com 30 anos, o marketeiro conta que, aos 16, tentou se assumir para a família, mas foi duramente reprimido pelo pai, que não aceitava a sexualidade do filho e, por este motivo, o obrigou a passar por um tratamento de reversão sexual.

“Eu fiz dez sessões de terapia de reversão sexual. Foi um período em que eu pude falar bastante sobre mim, mas foi meio inútil. Hoje, eu vejo que naquela época eu não fiz terapia de verdade. Eu só fui vítima de um charlatão. Afinal, quem diz que pode reverter a sexualidade de uma pessoa não tem outro nome. É charlatão mesmo”, lembra.

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Mauro de Bias Almeida, profissional de marketing

No entanto, mesmo sabendo da ineficiência do tratamento, por não ter condições de se sustentar sozinho, Mauro passou 10 anos fingindo que a terapia havia funcionado e, inclusive, chegou a namorar uma mulher durante este período para abafar o problema.

Foi somente aos 26 anos, empregado e morando sozinho, que ele finalmente – e orgulhosamente – se assumiu. Feliz por ter deixado para trás todos os conflitos e até o personagem que construiu durante esses anos, ele ainda comemora o fato de ter se livrado da masculinidade tóxica, afinal, o machismo também afeta os homens.

“Quando eu ainda fingia que era hétero, qualquer pinta que eu desse era automaticamente rechaçada pelos homens ao redor em forma de piadinha. Aquela zoadinha hétero adora fazer no amigo que dá mole. Mas, quando eu me assumi passei a poder responder essas zoadinhas com: “Viado sim, e daí?”. E isso é uma libertação muito grande”.

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Marco Leta, maquiador

Assim como Mauro, o maquiador Marco Antonio Leta, de 29 anos, também sempre teve problemas com o pai por causa da sua sexualidade, que foi revelada aos 15 anos depois que a família achou flyers de uma matinê gay em meio às suas coisas.

“Quando eu tinha 12 anos, meus pais acharam umas buscas na barra do navegador da internet e minha mãe me colocou contra a parede. Fingi que era só uma curiosidade e que não sabia muito bem do que gostava. Mas, anos depois, com essa história dos flyers, a bomba estourou e, após uma discussão, meu pai me espancou e me deixou com o corpo cheio de marcas”, lembra.

O maquiador conta que essa não foi a única vez que apanhou do pai e que, mesmo antes de se assumir como gay, chegou a ser espancado por não se defender, aos 7 anos de idade, de um garoto que o chamou de “viadinho” na rua onde morava.

Leia também: 8 Práticas simples para deixar de ser machista.

Marco, inclusive, acredita que as pessoas provavelmente descobriram que ele era gay antes mesmo que ele descobrisse, já que desde muito cedo as pessoas usavam apelidos pejorativos como “mulherzinha” ou “bichinha” para se referir a ele.

E foi justamente por viver em um ambiente onde ser LGBTQ+ era visto como pecado, errado, nojento, pervertido e vergonhoso é que o maquiador não se sentia à vontade para “sair do armário”.

Apesar dos inúmeros conflitos com o pai, Marco conta que, hoje, ele demonstra arrependimento e que, há alguns anos, chegou inclusive a pagar seu curso de maquiagem.

Já Mauro conta que não fala com o pai desde os 26 anos, quando se assumiu. “Ele disse que não aceita ter um filho gay. E eu não considero que esse seja um problema meu”, comenta.

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Beatriz Coelho, marceneira

“Sem muito drama, sem violência, com a confusão de quem não tem informação, mas com amor” – é assim que Beatriz Coelho diz ter sido a conversa quando assumiu para seus pais, aos 17 anos, que era homossexual.

Felizmente, a marceneira de 30 anos faz parte de um (ainda) pequeno grupo de pessoas LGBTQ+ que tiveram apoio e compreensão da parte dos pais – o que não quer dizer, necessariamente, que “sair do armário” foi fácil para ela.

Apesar de ter entendido sua sexualidade apenas aos 17 anos, a marceneira conta que sempre soube que o que sentia pelas meninas não era comum. Por ter crescido em um ambiente com muita desinformação, ela relata que sentia culpa e vergonha desde muito nova, já que as outras crianças percebiam que havia algo de “diferente” com ela.

Justamente por isso é que Beatriz teve medo de contar ao seu pai que era lésbica. “Quando eu falei para a minha mãe foi difícil, porque ela ficou triste e preocupada com o quanto eu poderia sofrer. Mas a conversa foi tranquila, carinhosa. O difícil mesmo foi ela ter pedido para eu contar para o meu pai, para que ela pudesse dividir esse assunto com ele. Eu me recusei”, conta.

Um ano depois, porém, ela resolveu se abrir para o pai, que teve uma reação inesperada, mas de forma positiva. “Ele ensaiou uma discussão e minha mãe ficou do meu lado, dizendo que era muito difícil eu falar sobre aquilo e que ele precisava me ouvir. Foi bonito”.

Semanas depois, o pai da marceneira mandou um e-mail cheio de dúvidas, mostrando que, muitas vezes, os pais sentem, na verdade, curiosidade e preocupação. Atualmente, a família tem uma ótima relação, com pontos de atrito, mas Beatriz garante que nenhum deles tem relação com sua sexualidade.

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“Meus pais adoram meus amigos, minha namorada e minhas ex-namoradas. Uma delas, inclusive, morou um ano com a gente e eles têm um grupo no celular, do qual nem eu faço parte! Eles sabem mais da vida dela do que eu. Eu acho maravilhoso”, diz.

Beatriz se considera pansexual, o que significa que sente atração sexual, romântica ou emocional em relação às pessoas, independentemente de seu sexo ou identidade de gênero. “Mas eu costumo dizer que sou sapatão, porque para mim essa é também uma posição política”, esclarece.

Ajuda psicológica é fundamental para aceitação

Aceitar a sexualidade não é tão fácil quanto aparenta, já que a pessoa foge dos padrões sobre o que a sociedade entende como masculinidade e feminilidade. Para ter que lidar com isso, com os traumas passados e com os medos do futuro, buscar ajuda profissional é essencial.

O maquiador Marco Leta, por exemplo, conta que nunca conseguiu se relacionar afetivamente com outro homem, já que sua autoestima é muito abalada devido a tudo o que sofreu na escola e em casa.

Com ajuda psicológica, o maquiador conseguiu, no entanto, criar um sentimento de orgulho em ter chegado onde chegou e por ter passado por tantas coisas que o deixaram mais forte. “Se eu não tivesse auxílio profissional, acho que não iria ter forças para continuar”, comenta.

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Mauro também recorreu à terapia para lidar com conflitos internos e, claro, com a sua sexualidade. Hoje ele afirma que “faz terapia de verdade”, nada que lembre àquela que fez aos 16 anos na tentativa de “reversão sexual”.

A marceneira Beatriz conta que sentiu vergonha durante anos por ser quem era e que até Freud – médico neurologista, criador da psicanálise – leu para tentar entender o que acontecia com ela, mostrando que a psicologia pode ser auxílio para os LGBTQ+ de diversas formas.

Violência contra pessoas LGBTQI+ e o sentimento de medo

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Apesar do sentimento do orgulho LGBT ser muito forte, em muitos momentos o medo acaba falando mais alto, já que o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo, além de registrar uma morte motivada por homofobia a cada 16 horas.

Além de apanhar do próprio pai muitas vezes, ao longo da vida, o maquiador Marco Leta conta que já passou por muitas situações de constrangimento em locais lotados e que ninguém saiu em sua defesa.

Beatriz Coelho, que tem grupos de amigos formados apenas por pessoas LGBTQI+, garante que não conhece uma pessoa homossexual que tenha saído ilesa de qualquer tipo de discriminação.

“Tem gente que acha que é exagero, mas com o cenário político e social atuais, eu e meus amigos recebemos muito mais olhares e agressões verbais do que já estávamos acostumados a receber”, comenta.

Já Mauro comenta que raramente sente medo, mas acredita que isso se deve ao fato de ele estar “protegido por uma capa de masculinidade padrão”.

“As pessoas não me identificam como gay de cara. É preciso me conhecer um pouco mais. Mas pessoas próximas à mim que não têm essa proteção estão muito mais expostas. Um casal de amigos meus já sofreu um ataque homofóbico violento num ônibus aqui no Rio de Janeiro e isso é uma coisa que até hoje me deixa devastado”, diz o profissional de marketing.

Em junho deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero passe a ser considerada um crime. Pessoas LGBTQI+ comemoraram a notícia, já que a criminalização da homofobia ajuda para que elas tenham respaldo para combater as agressões e desmotivar o agressor. Além disso, a lei serve como um “amparo”, uma vez que faz com que a comunidade se sinta um pouco mais protegida.

No entanto, a medida é considerada paliativa, já que não combate a raiz do problema e nem educa o agressor – apenas o pune.

“Não adianta punir um ato discriminatório se as pessoas não forem devidamente educadas a guardarem suas opiniões para si mesmas no que diz respeito à intimidade das outras. A humanidade é vasta em manifestações de diversidade sexual e isso está documentado em vários períodos e culturas da humanidade, então ela precisa ser levada à sério”, afirma Marco Leta.

Dia do Orgulho LGBT: o que o dia 28 de junho representa

Dia do Orgulho LGBT

Também em junho é comemorado o Dia do Orgulho LGBT. A data não é à toa, já que marca a chamada Rebelião de Stonewall Inn, um episódio que aconteceu em um bar de Nova Iorque que era frequentado por gays, lésbicas e transexuais. No dia 28 de junho de 1969, os frequentadores reagiram a uma série de batidas policiais – que eram realizadas no local frequentemente – gerando uma espécie de rebelião e dando início a uma série de protestos pela reivindicação dos direitos dos homossexuais.

No Brasil, a data é celebrada por meio da Parada do Orgulho LGBT, conhecida popularmente como Parada Gay. Atualmente, o evento mescla um tom político crítico com festa já que, além de uma comemoração, a data serve como protesto.

“O dia 28 para mim representa aquele instante em que cada LGBTQI+ respira fundo e toma a coragem de falar mais alto do que o opressor” – Beatriz Coelho.

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“Um dia de reflexão que me faz pensar em tudo que eu consegui fazer para minha autoaceitação e crescimento pessoal, que foram muito difíceis” – Marco Leta.

“Pra que hoje a gente possa comemorar essa data com “a cara no sol”, muita gente deu o sangue, literalmente! Desde sempre, as pintosas, as travestis, as trans, as afeminadas, as caminhoneiras é que estão na ponta da lança garantindo essa liberdade a todos os LGBTs. E dia 28 é dia de lembrar que é graças a elas que hoje nós temos direitos, ainda que frágeis e constantemente ameaçados” – Mauro de Bias Almeida.

1 comentário neste post

  1. Ana Cristina de Aguiar Coelho disse:

    Boa matéria. Bom mesmo seria se os pais , começando por eles, pusessem em prática o amor incondicional. Longe de me considerar perfeita, mas tenho prática e acredito nesse amor.
    Cris

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