Mãe negra, filhos brancos: o racismo vivenciado na maternidade

Por: Luana Queiroz
Ayra Borges
Ayra Borges relata o preconceito racial sofrido com a maternidade

A maternidade é uma fase de grandes desafios na vida de muitas mulheres, que envolvem transformações do corpo, da rotina e da convivência em sociedade. 

Mas, para além disso, as mulheres que vivenciam uma relação interracial podem se deparar com uma nova face do racismo estrutural: o preconceito racial por terem a cor da pele diferente de seus filhos.

Não é novidade os mais variados relatos que envolvem preconceito e discriminação direcionado a mulheres negras que têm filhos com a pele mais clara e que resultam em uma série de constrangimentos e até acusações.

A difícil jornada da mãe negra

A maternidade da mulher negra tem uma jornada árdua que encontra adversidades desde antes do nascimento do bebê. Com menos acesso ao pré-natal e outros direitos básicos, como acompanhamento durante o parto, a mãe negra também é mais vítima da violência obstétrica e da mortalidade materna.

Como se não bastasse, ainda sofrem os resquícios de antigos estereótipos ligados à mulher negra, como sendo mais forte, mais resistente à dor e, assim, pode ter o seu atendimento despriorizado. 

Outra forte figura que ainda é atribuída às mulheres negras é da ama de leite, personagem conhecida dos países que fizeram uso da escravidão. Essas mulheres negras escravizadas eram responsáveis por amamentar os filhos de seus senhores, pois, naquela época, o leite da mulher negra era considerado mais forte e abundante. 

Assim, a figura da mulher negra com uma criança branca no colo era associada com servidão, nunca com maternidade.

Racismo velado? Nem tanto assim 

Embora a escravidão e suas amas de leite tenham ficado para trás, os vestígios desse tempo ainda são vistos e sentidos pela população negra até hoje. Ainda que o racismo estrutural esteja enraizado na sociedade e seja vivenciado explicitamente todos os dias por boa parte da população, é muito comum se falar de um racismo velado.

O racismo velado é aquele que acontece discretamente nas relações sociais, escondido em supostas brincadeiras ou expressões. Mas será mesmo que o que uma mãe negra com filhos brancos vivencia é realmente velado?

Para que você possa tirar suas próprias conclusões, conheça a história de duas mães negras com filhos brancos.

“Nossa, você parece a babá.”

Ayra Borges tem 22 anos, é estudante de Pedagogia e mãe do Asafe, de 2 anos. Desde o nascimento do filho, ela não sai sozinha com ele por receio de sofrer preconceito racial:

“Depois que meu filho nasceu, uma insegurança muito grande tomou conta de mim, tive muito medo de sair na rua sozinha com ele. Em uma das minhas redes sociais vi uma mãe (preta) relatando que uma pessoa tentou roubar o filho (branco) dela em um supermercado, e as pessoas estavam acreditando que a sequestradora era a mãe verdadeira dele pelo simples fato dela ser branca.

No Brasil, infelizmente vivemos essa realidade, se é branco deve provar que é culpado, se é preto deve provar que é inocente. Sempre que posso, evito sair sozinha com meu filho. Nunca passei por uma situação de preconceito explícito, mas já escutei alguns comentários racistas. Certa vez, uma amiga (branca) estava com meu filho no colo, eu ao lado, e uma pessoa falou: “nossa, você parece a babá.”

“Ela é mesmo sua filha?”

Hilda Hellen tem 25 anos, é design de unhas e sobrancelhas e mãe de dois: Anthony Emannuel (4 anos) e Sophia Evellin (6 anos):

“Acho que minha primeira experiência foi ao nascer, parte da família do meu esposo veio ao hospital e, chegando lá, indicaram: ‘acho que vai ser branquinha, hein?’ Por aí começou, seguidamente, entre idas ao pediatra sempre perguntarem ‘ela é mesmo sua filha? Puxou o pai pra ser galega assim?’ Sempre com tom de maldade.

Na escola uma vez me disseram que “graças a Deus” ela tinha nascido branca, porque senão, talvez, o pai duvidasse da paternidade. Já com o rapaz só aconteceu uma vez no shopping. A vendedora de um quiosque me perguntou se a mãe dele deixava eu dar doce pra ele. Detalhe: ele me chamava de mãe de minuto a minuto.”

Quebre esse ciclo de preconceito e discriminação

Por mais que o racismo no Brasil esteja entrelaçado com a história do país, cada pessoa precisa repensar ações e falas para não mais reproduzi-lo. Pode parecer algo muito grande para se lutar individualmente, mas são em pequenos passos que o todo pode se transformar.

Aproveite as histórias dessas mães negras e repense atitudes simples, como a reprodução de expressões racistas

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