Setembro Amarelo: 10 coisas que não devemos dizer para quem tem depressão

Apesar do Brasil liderar o ranking do número de casos de depressão na América Latina, não é difícil notar que ainda há muita desinformação sobre a doença no país, o que contribui ainda mais para o seu agravamento. Segundo dados da OMS, são registrados no Brasil cerca de 12 mil suicídio todos os anos, sendo que 96,8% deles estavam relacionados a transtornos mentais, especialmente à depressão.

Enquanto acontece mundialmente uma redução de 32% nas mortes por suicídio, o Brasil fica na contramão dessa tendência e registra um aumento de 24% – número que é bastante preocupante. Para desmistificar o tabu em torno do suicídio e combatê-lo nacionalmente, desde 2014 a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), organiza o chamado “Setembro Amarelo”.

Todos os anos, a data 10/09 é lembrada como o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, trazendo a tona debates pertinentes ao assunto. De acordo com especialista pela ABP e psiquiatra geral da Unifesp, Danielle Admoni, erros e preconceitos vêm sendo historicamente repetidos, contribuindo para a formação de um estigma em torno desse transtorno mental e do comportamento suicida.

“O estigma resulta de um processo em que as pessoas passam a se sentir envergonhadas, excluídas e discriminadas”, explica a psiquiatra Danielle. Para auxiliar o entendimento sobre a doença e desmistificar o tabu em torno do suicídio, veja abaixo 10 coisas que não devemos dizer (e por qual motivo!) para pessoas diagnosticadas com depressão e saiba também como oferecer ajuda para um amigo ou parente com a doença.

“Nem parece que você tem depressão”

Apesar dos principais sintomas de depressão estarem relacionados à uma tristeza persistente e à perda de interesse em atividades que normalmente são prazerosas, não é correto imaginar que pessoas com a doença estão sempre chorando pelos cantos. Elas também podem ter momentos pontuais de diversão e alegria.

“Está assim porque não tem problemas de verdade”

Também segundo a OMS, o número de casos de suicídio na faixa etária de 10 a 14 anos aumentou 40% em dez anos e 33,5% entre adolescentes de 15 a 19 anos. Por causa da pouca idade, não é raro que os jovens ouçam comentários sobre “falta de problemas”, mas vale ressaltar que todos seres humanos enfrentam batalhas e lidam de formas diferentes com elas.

“Pessoas que dizem que vão se matar só querem chamar atenção”

Para Danielle Admoni, essa frase, além de cruel, é também um mito. “A maioria dos suicidas fala ou dá sinais sobre suas ideias de morte. De alguma forma, boa parte dos suicidas expressou seu desejo de se matar, seja para médicos, familiares ou amigos” esclarece.

“Você já tentou não ficar triste?”

Ao contrário do que muitas pessoas desinformadas podem acreditar, a depressão não é baseada numa relação de causa e efeito, mas sim numa série de variáveis que altera a percepção do mundo. A depressão, então, não é uma escolha do paciente, assim como os sentimentos que ela provoca também não são.

“Mas você tem tudo, não deveria ficar triste”

Ter uma casa para morar, um emprego fixo ou um carro novo são grandes privilégios, mas é preciso lembrar que “ter tudo” nunca impediu ninguém de ficar triste ou até mesmo de ficar depressivo. É preciso ter empatia com qualquer paciente, independentemente de suas condições financeiras.

“Pobre não tem tempo para ter depressão”

Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu essa frase problemática. Essa afirmação, além de ser uma forma de invalidar a dor de classes sociais mais baixas, também está equivocada, já que, na verdade, as classes C e D estão mais vulneráveis à depressão do que a classe média, por exemplo.

“Depressão é frescura”

Por se tratar de um transtorno da mente, ainda existem muitas pessoas que não levam a depressão a sério. Antes de dizer que ela é uma “frescura”, busque conversar com pacientes que apresentam ou já apresentaram o quadro e evite minimizar o sofrimento alheio dessa forma.

“Depressão é falta de Deus”

Religiões são grandes alicerces e podem dar esperanças à pacientes com diversas doenças do corpo e até mesmo da mente, mas não há nenhuma comprovação de que a depressão esteja relacionada com a fé. Inclusive, não é raro encontrar padres e pastores que apresentam a patologia.

“Então você toma tarja preta?”

O tratamento com medicamentos costuma ser uma parte importante da abordagem terapêutica multidisciplinar, mas, infelizmente, o uso de antidepressivos ainda pode ser mal-visto pelos desinformados. Chamar os remédios de “tarja preta” também é bastante depreciativo.

“Você deveria ser uma pessoa menos negativa”

Conviver com alguém diagnosticado com depressão nem sempre fácil e, em muitos casos, a baixa energia e o negativismo acabam afastando até mesmo pessoas mais próximas. No entanto, vale lembrar que criticar o estado depressivo de uma pessoa pode agravar ainda mais seu caso. Seja solidário e evite a positividade tóxica.

Como ajudar uma pessoa com depressão

Apoio e empatia são fundamentais para ajudar um parente ou amigo com depressão, mas, para isso, os primeiros passos são entender a depressão e não julgar. Com a campanha “Setembro Amarelo”, muitos usuários das redes sociais costumam abrir o inbox para desabafos e conversas, um ato simples que serve para mostrar aos pacientes que eles não estão sozinhos.

Apesar disso, vale ressaltar que ajuda profissional é indispensável para casos de depressão. Essa é uma doença que tem tratamento, mas, para isso, acompanhamento psicológico ou psiquiátricos não podem ser ignorados. Além disso, contar com ajuda especializada é sempre a melhor opção para lidar com possíveis crises e até mesmo tentativas de suicídio.

O CVV (Centro de Valorização da Vida) é uma organização que oferece atendimento gratuito de apoio emocional e prevenção ao suicídio. Com centenas de voluntários que acolhem gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, o atendimento acontece por telefone (basta discar 188), e-mail e chat 24 horas todos os dias, sendo que o sigilo é totalmente garantido.

Ao longo deste Setembro Amarelo, mês que o CVV considera que as pessoas ficam mais abertas para se informar sobre a importância de buscar apoio, a organização se adaptou para mobilizar a população ao redor desse tema tão relevante e sensível, especialmente agora, em tempos de pandemia e isolamento social. Acesse o site http://www.setembroamarelo.org.br e saiba mais sobre a campanha que valoriza a vida.

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