Thauany Lima

Por que devemos falar sobre a solidão da mulher negra?

solidão da mulher negra
Quem diz que “o amor não tem cor” realmente não enxerga a desigualdade racial que atormenta a mulher negra no Brasil.

Se você é uma pessoa antenada nos coletivos feministas ou acompanha a fundo as lutas de gêneros e classes, já deve ter escutado rumores sobre a “solidão da mulher negra”.

Esse assunto não se trata de teorias sem embasamentos, são dados estatísticos que mostram o quanto o racismo estrutural do Brasil coloca a mulher negra na solidão.

As mulheres negras, principalmente as de peles retintas, somam o maior número de união NÃO estável no Brasil, isso de acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Além disso, a mulher negra é a mais propensa ao “celibato definitivo”, ou seja, ela tem a maior chance de não se relacionar com alguém durante a vida.

Objetificação da mulher negra

Quando uma mulher branca luta pela objetificação dos seus corpos têm um peso tão importante quando o conflito da mulher negra, porém, é preciso colocar na lista da segunda pessoa o peso da escravidão, o cabelo crespo, a cor da pele, os problemas históricos e a exploração de um estereótipo sexual.

A mulher negra é vista como a foguenta, boa de cama e com os corpos de deixar qualquer homem com água na boca. Porém, quando o assunto é RELACIONAMENTO SÉRIO, elas realmente não são as principais escolhas.

A baiana Daniela Souza, 38 anos, descreve o que é a hiperssexualização da mulher negra e quando entendeu as intenções dos homens brancos nos corpos negros.

“Tenho vários relatos a discorrer, mas dentre eles, evidenciei um problema no meu antigo trabalho, onde um homem branco me disse ‘minha negrinha, te dou vinte mil reais para uma noite comigo’. Essa frase ainda me atormenta, mas o que esperar de um homem branco, patrão, que vive em uma sociedade, onde a imagem cultural da mulher negra é estruturalmente atribuída pelo servir, pelo exótico, pela exuberância, pela sexualidade”. Conta Daniela.

A mulher negra precisa viver todos os dias lutando contra o racismo e machismo, carregando historicamente a objetificação dos seus corpos, como a mercadoria sexual mais barata do mercado.

A solidão da mulher negra historicamente

Estudiosos acreditam que esse fenômeno histórico acontece em reflexo dos 300 anos de escravidão que a população afro-brasileira foi submetida, mas também, pelos estereótipos associados à mulher negra no imaginário popular.

Eles surgiram no período Brasil colônia, onde as negras mais compradas no mercadão eram as de pele mais claras, traços do rosto mais finos e curvilíneas.

Elas eram as selecionadas para trabalhar dentro da casa grande e consequentemente era a escrava que ficava à disposição sexual dos senhores brancos.

Desses estupros nasceu à imagem da mulher negra foguenta, a famosa mulata (termo depreciativo que associa a cria do cavalo com a jumenta, ao filho da escrava com o escravista).

Essa mulata é a negra de pele clara que gringo deseja conhecer, que está no carnaval e nos comerciais de cerveja.

Além desse mito, existem outras duas crenças que perseguem a imagem da mulher negra: a mulher negra forte e a mãe preta. Essa primeira se refere aquela mulher preta robusta e barraqueira, que as pessoas temem entrar em um conflito.

A segunda, descreve a negra que serve, que cozinha bem, que cria os filhos dos outros e os dela, como por exemplo, a tia nastácia.

Esses mitos intensificam o racismo no Brasil e deixa claro que quanto mais clara a cor da pele, mais privilégios e desejada você será, o contrário das mulheres de pele mais escura, que são colocadas em lugares de servidão e desequilíbrio.

Contudo, mesmo sendo a mulata, desejada, foguenta e boa de cama, não é a mulher que os homens idealizam como parceira para vida toda.

Histórias sobre a solidão da mulher negra

A mulher negra já cresce resistindo e sendo rejeitada, seja na escola, no meio dos coleguinhas do bairro, nos relacionamentos e outros convívios sociais.

Elas se deparam com a solidão da mulher negra na primeira infância, mas não entendem o porquê acontece.

A jornalista Ingrid Mabelle, 25 anos, conta quando descobriu o que é ser mulher negra de pele escura nessa sociedade machista e racista:

“É muito complicado falar sobre a solidão da mulher negra porque é algo que a gente demora a entender.

Normalmente na escola, quando estamos nos relacionando com amigos e colegas de classe, existe um isolamento que parece involuntário, mas tem muito a ver com a cor da pele e quando percebemos isso, depois de mais velha, é triste.
Quando eu era pré-adolescente e adolescente não compreendia que o fato de ter poucos amigos, de ter demorado a beijar, namorar e até me relacionar sexualmente em relação às minhas amigas tinha a ver com a negritude.

Normalmente nessa fase da vida muitos se aproximavam apenas para uma amizade, fosse ‘devido a inteligência’ (eu era aquela pessoa que a turma procurava na hora das atividades e trabalhos em grupo) ou por interesse em alguma amiga minha, porque eu andava com as ‘meninas mais bonitas’.

Minhas relações tiveram sempre uma barreira que eu, de certa forma, não enxergava, achando que estava tudo bem, acabava e era um ciclo. Hoje, já com meus 26 anos, observo que todos os meus ex-namorados ou ‘ficantes’ sempre apareceram, logo após nosso termino com outra namorada: branca e participando ativamente dos encontros em família”, relata Mabelle.

Natália Santana (23) também descreve como foram suas experiências de vida e a sua solidão como mulher negra: “A negra de pele clara sempre irá ter mais amigos do que a negra de pele escura, na escola era bem assim. Eu nunca fui de ter muitos relacionamentos, nunca achei algo tão importante, mas na adolescência foi algo um pouco chato, já que todos namoravam e eu nada. Porém, eu nunca relacionei esses fatores com a cor da minha pele. Na adolescência, sempre que me relacionava com um “carinha”, ele queria o algo a mais, por que “negra é quente”, sabe como é o mito, né? Era estranho, então optava em ficar mais na minha ou me relacionava apenas com um negro.”

O racismo continua açoitando as mulheres negras, mesmo após quase quatro gerações de abolição. Além de serem as mais rejeitadas e objetificadas, são as que mais morrem no país, somando 71% dos casos de homicídios de acordo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicada (Ipea). As pretas também são as maiores vítimas de feminicídio no brasil, atingindo 61%.

Quando se trata de mães independentes, as mulheres negras também são a maioria, naturalizando sua imagem na maternidade independente e solitária.

Esses dados deixam em evidência a falta de preocupação com as vidas das mulheres negras e reforçam também os estereótipos sobre seu imaginário, trazendo a desumanidade dos 300 anos aos dias de hoje.

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